A Odisséia (The Odyssey, 1997)

Na última quinta-feira, 16 de julho de 2026, estreou uma nova adaptação da Odisseia de Homero dirigida por Christopher Nolan. Falar mal deste diretor virou moda nos últimos anos, mas não sigo esta tendência e admiro boa parte de sua filmografia, assim como a de Danny Boyle, outro diretor britânico. Conheci o primeiro por Amnésia (2000) e meu favorito é A Origem (2010); já do segundo, o contato inicial se deu com Trainspotting (1996) e foi Sunshine - Alerta Solar (2007), excelente ficção científica, que despertou minha curiosidade para conhecer mais de suas obras.
Quando um novo filme destes diretores é uma biografia sinto um "pesar"; fica a sensação de que um "cartucho foi queimado". Penso que seria mais proveitoso fazerem o que fazem de melhor: algo mais autoral ou que saia da mesmice da Indústria. Este peso é amenizado quando racionalizo que o dinheiro e reputação obtidos serão revertidos para projetos mais ousados. Por exemplo: não gostei de Tenet (2020), mas foi uma boa tentativa de trazer algo diferente.
Já no caso de A Odisseia (2026), pode ter algo de interessante e inovador por ali. Mas a verdade é que o longa não me despertou o menor interesse. Neste ponto, passo ao largo da infantil troca de farpas entre "gregos e troianos", que focam seus esforços em rotular uns aos outros, usando o filme como pedra de toque para definir personalidade e/ou caráter de outrem.
Tampouco teço críticas sobre a fidelidade em relação à obra original, fenótipos ou linguagem utilizada. Apenas me soa apático, inócuo e insosso; algo que pode mudar, caso alguém me chame a atenção para algo específico ou coloque uma perspectiva diferente. Por hora, diante do que vi e ouvi de quem assistiu, sinto que o filme tenta esconder o que é: uma obra de fantasia.
De todo modo, o assunto em voga me remeteu à adaptação de 1997, protagonizada por Armand Assante e quis conferi-la novamente. Era frequentemente exibida no SBT e foi por lá que a assisti, por mais de uma vez. Sempre gostei de mitologia grega e o filme reforçou este interesse: posteriormente, tive contato com O livro de ouro da mitologia, Ilíada e Odisseia.
Todavia, para minha decepção, descobri que os dois últimos eram em verso... Como alternativa, me indicaram uma versão da Odisseia em prosa, mas não me animei em ler. Passados todos estes anos, o que não mudou foi meu gosto pelo filme. E graças ao canal Léo Arrocha pude assisti-lo numa versão dublada e em alta definição no YouTube (o filme havia sido lançado em DVD, mas não em Blu-ray).
Foi surpreendente assisti-lo em sua versão integral, com 3 horas de duração. Em nenhum momento soou arrastado ou cansativo. Os efeitos especiais e visuais são limitados, mas nem por isso o filme se acanha em mostrar seus elementos fantásticos: criaturas, deuses e os fenômenos da natureza provocados por estes últimos. O destaque vai para a transição da primeira para a segunda parte, quando Odisseu adentra o Hades. Esta cena causa grande impacto visual e dramático, renovando a energia para mais 90 minutos de tela.
Nas atuações, o estilo flerta com o teatro, trazendo maior expressão corporal (incluindo alguns overacting, no melhor estilo Al Pacino). Neste quesito, Armand Assante modula bem momentos de alegria, tristeza e ira nas diversas fases de sua jornada: pós-guerra, provação e o retorno à Ítaca. O restante do elenco segue a mesma linha. Aliás, temos um ator que caiu como uma luva para o papel de Eurímaco: Eric Roberts, com um ar mais galanteador e político nas tratativas.
E aqui temos um ponto interessante: o respeito dos personagens aos costumes. Há todo um regramento quanto à sucessão de Odisseu, caso não retorne. Os pretendentes, por mais que pudessem impor sua vontade pela força, seguem este ordenamento. A zona cinzenta está na questão: Odisseu retornará? Está vivo ou morto? Por conta disso, a rainha Penélope lança mão de um ardil para ganhar tempo, na esperança de que seu marido volte.
Esse imbróglio político remete a situações como a do filme O Pagador de Promessas (1962), no qual Zé do Burro se vê preso num limbo do sincretismo religioso envolvendo Catolicismo e Candomblé que o impede de seguir com seu intento. Tanto lá como cá, a tensão acumulada coloca os personagens numa irreversível rota de colisão.
A epopeia de Odisseu pode ser resumida em três palavras: astúcia, arrogância e resignação. A primeira se dá no uso da inteligência em estratagemas como o Cavalo de Troia; a soberba, quando ignora a Providência; e, por fim, a guerra de egos e vaidades entre mortais e deuses, com estes últimos dando a palavra final.
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