Curadoria da Internet

Agnotology (Robert N. Proctor e Londa Schiebinger)

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Aviso Importante

Este post (ainda) não é uma resenha do livro.

Trata-se de um apanhado de notas que fiz durante a leitura (ainda incompleta: 225 de 298 páginas). Essas notas não estão organizadas e talvez careçam de coesão e coerência. Portanto, só recomendo prosseguir se tiver muito interesse no tema Agnotologia e quiser saber mais sobre este livro.

Iniciei a leitura em 22/12/2023 e ela entrou num hiato desde pelo menos 09/01/2025. Os principais motivos são: o livro tem um tom bem acadêmico, está em inglês e seu tema é bem espinhoso (principalmente quando lembro de tudo que aconteceu e ainda acontece neste País).

Como o BookWyrm (rede social de livros) é meio truncado (não agrupa as notas de um livro na mesma página), resolvi copiar o que estava lá para o blog. Por enquanto, vou deixar tudo como estava, de forma acumulada (diferente do que pretendo fazer com Impérios da Comunicação (Tim Wu), o qual pretendo fazer um post por capítulo).

Introdução

Diante do negacionismo e da promoção da ignorância no Brasil, que chegou ao paroxismo na época da Pandemia da COVID-19, precisava de alguma forma entender mais sobre o assunto e foi assim que cheguei ao termo Agnotologia, que seria uma ciência que estuda a promoção da ignorância.

Este livro possui vários ensaios de diversos autores. Os dois nomes em destaque são dos organizadores. Foi Robert N. Proctor que cunhou o termo "Agnotologia" e como não encontrei nenhum livro em português sobre o assunto, resolvi ir à fonte original. Em inglês mesmo.

A partir desta nota, seguirei transcrevendo aqui meus "diários de leitura". Não sei se um dia conseguirei fazer uma resenha. Mas acho importante deixar um conteúdo em português sobre o tema. Como lamento de não ter este tipo de informação na época da Pandemia... Antes tarde do que nunca.

A Introdução acima foi publicada originalmente no BookWyrm, em 01/06/2024

Informações do Livro / Folha de Rosto

Agnotology: the making and unmaking of ignorance. Editado / organizado por Proctor, Robert N. e Schiebinger, Londa. Palo Alto: Stanford University Press, 2008.

Todos os autores: Robert N. Proctor, Peter Galison, Naomi Oreskes, Eric M. Conway, David Michaels, Nancy Tuana, Londa Schiebinger, Adriene Mayor, Alison Wylie, Michael J. Smithson, Charles W. Mills, David Magnus, Jon Christensen.

Históricos de Leitura no BookWyrm

As páginas indicadas se referem à última pagina lida em determinado dia. Geralmente, o conteúdo trata de um intervalo maior.


2024-01-08

Comecei o capítulo sobre mudanças climáticas, logo no início, fala sobre Arnold Schwarzenegger, em 2005, quando foi Governador da Califórnia, comentando que ele tomou medidas para combater o efeito estufa. Isso me surpreendeu pois, geralmente, os Republicanos são bem avessos a estas pautas.

2024-01-09

Vi algo relacionado ao aquecimento global que lembro de ter lido antes no livro Gaia - Alerta Final. Basicamente, ambos livros falam da importância da neve e das calotas polares para refletir a luz do sol e evitar maior aquecimento:

O derretimento do gelo flutuante não eleva significativamente o nível do mar [...] mas faz diferença para a quantidade de calor que a Terra recebe do Sol. O gelo branco coberto de neve reflete 80% da luz solar ao espaço, mas a água escura do mar reflete apenas 20% da luz solar que a atinge (LOVELOCK, James. Gaia - Alerta Final, p. 52)

2024-01-17 (p. 60)

No capítulo que li fala de um instituto chamado Marshall, em homenagem ao Plano Marshall (de reconstrução da Europa na Segunda Guerra). Trata-se de um think tank, encabeçado por um apoiador da Guerra nas Estrelas durante, o governo Ronald Reagan. Programa que foi criticado à época pela maior parte dos cientistas, que alegaram que tal programa (que interceptaria mísseis intercontinentais) ia contra a Destruição Mútua Assegura (M.A.D.), que era o conceito que balanceava a Guerra Fria.

O livro, de 2008, mostra com boa fundamentação como surgiram estes Think Tanks de negacionistas, a técnica utilizada por esse instituto Marshall lembra muito o que um grupo bem conhecido faz no Brasil: grande investimento em anúncios na mídia e a produção de conteúdo audiovisual com narrativa que vai de encontro ao que a maior parte da Academia defende.

No livro, usam o termo "contrarian" para os negacionistas. A linha de argumentação lembra muito as teses jurídicas de defesa no Direito Penal, do tipo: 1) o fato criminoso não ocorreu; 2) se ocorreu, não foi praticado pelo réu; 3) se foi praticado pelo réu, há uma excludente de ilicitude ou não deve ser punido com privação de liberdade. Aprendemos, inclusive, que tais teses podem ser contraditórias, pois trata-se dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa.

No caso do livro:

"Its spokesmen and members have argued that there is no proof that global warming is real or, if it is real, that there is no proof that it is caused by human activities or, if it is real and anthropogenic, that there is no proof that it matters". (p. 60).


2024-01-18 (p. 64)

Foram poucas páginas, mas é muito esclarecedor. Escrito em 2008, é extremamente atual no que se refere a revelar, de forma certeira como a Direita age. Exemplo:

"Jastrow believed that if the American people understood SDI, they would support it, but for this to happen journalists had to present it correctly. The institute’s first initiative, therefore, would be a 'two-day training seminar for journalists on the fundamental technologies of Strategic Defense.' Over the next two years, the institute built up its program activities in the manner that Jastrow had hoped. By 1986, it had clarified its goal and was moving toward getting its message directly to where it counted, namely, Congress. Through press briefings, reports, and seminars directly aimed at Congress members and their staff, the institute promoted its message." (p. 63).

Este tipo de expediente lembra muito o que o lobby de uma vertente ideológica de determinado país situado no Oriente Médio tem feito ultimamente. Por exemplo: convidando Ministros da Suprema Corte de um país sul americano para ver, in loco, como foram os ataques realizados por um grupo considerado terrorista. O evento é promovido por uma Confederação, com passagens de avião (de classe executiva e/ou primeira classe) todas pagas, idem para hospedagens em hotéis de 5 ou 6 estrelas. Também têm feito isso com jornalistas, para reforçar a narrativa que querem imprimir sobre o conflito.

Aqui, também:

"A consistent theme of Marshall Institute materials was the demand for 'balance'— that the UCS position papers on SDI were one-sided, and journalists were obligated to present 'both sides.' [...]but those two sides had very different numbers of experts associated with them. [...] If journalists were to give both sides equal weight or space, this would effectively misrepresent the situation in the scientific community. (p. 64).

Essa é uma tática muito usada pela Direita. A filial brasileira de um canal estrangeiro de notícias, num programa que promove um "Grande Debate" fazia muito essa falsa equivalência, colocando, de um lado, uma pessoa com argumentos embasados; de outro, uma pessoa sem fundamentação nenhuma, dizendo absurdos que qualquer um com o mínimo de bom senso não levaria a sério. Outra emissora que promoveu muito essa visão e o "Doisladismo" foi uma conhecida rádio que, apesar de antiga, não é velha em seu nome. Que, aliás, continua com a mesma linha editorial.

Tudo isso converge para o ponto que me motivou a leitura deste livro: a promoção da Ignorância.

Faço o seguinte raciocínio: 1) Existem mais pessoas ignorantes ou esclarecidas? Ignorantes; 2) É mais fácil convencer e enganar pessoas ignorantes ou esclarecidas? Ignorantes.

Logo, principalmente no Brasil, há uma "base instalada" gigantesca de gente ignorante. A argumentação voltada aos ignorantes ajuda, inclusive, a retroalimentar a promoção da própria ignorância.

Em suma: quando vemos uma pessoa de Direita falando absurdos, com um discurso negacionista, muita das vezes, quem fala não acredita nisso. Mas possui a desfaçatez necessária para propagar esta mensagem, que é facilmente assimilada pelos ignorantes (em especial aqueles que são fisgados pelos gatilhos emocionais de bordões como "família" ou "Deus"). Aos esclarecidos, minoria, mesmo que se indignem não serão capazes de convencer a massa ensandecida, que o atacará impiedosamente. O esforço de um divulgador científico é inversamente proporcional à disseminação de fake news, por exemplo. Trata-se de uma luta inglória.

Mas não estou desanimado, muito pelo contrário: além de ser uma pessoa "esclarecida", me anima ter o esclarecimento sobre a propagação da ignorância. Antes de qualquer coisa, é preciso reconhecer que o problema existe e conhecer seu âmago. E, nas últimas sessões de leitura, pude perceber claramente os expedientes utilizados pela Direita, que não são TÃO sofisticados assim. O problema é que a população em geral ainda vive na menoridade que, segundo Kant, "é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem".

2024-01-19 (p. 72)

No Título "HOW SDI, TOBACCO, ACID RAIN, CFCS, AND GLOBAL WARMING CAME TOGETHER", conta que a RJR Nabisco, a empresa que possui a R.J. Reynolds Tobacco, estabeleceu um Programa de Pesquisa Médica. Seu objetivo: pesquisar outras causas de câncer que não o cigarro, colocando em dúvida o nexo causal do cigarro e enfatizando outras causas como estresse, hipertensão, traços de personalidade e genética.

Também fala sobre as pesquisas sobre os CFCs e seu impacto na camada de ozônio. Descreve como os negacionistas agiam, sempre colocando em dúvida as pesquisas científicas. Mas a História mostra que tais pesquisas estavam corretas:

"Rowland, Molina, and Paul Crutzen shared the 1995 Nobel Prize in Chemistry for their work on demonstrating the relation between CFCs and the depletion of stratospheric ozone.

[...]

In the very year that Rowland and Molina would win their Nobel Prize—indeed, just weeks before the prize was announced — Singer testified to the U.S. Congress: 'There is no scientific consensus on ozone depletion or its consequences' ". (p. 72).

2024-01-20 (p. 76)

O título "DEFENDING SMOKE" aborda questões sobre o fumo passivo e, novamente o negacionismo em cima desta questão.

Em "WHAT IMPACT HAS THIS HAD?", fala sobre como os Republicanos destacavam nos anos 1990 a incerteza como estratégia para evitar adoção de medidas contra o aquecimento global. Isso deixou marcas profundas, mesmo na década seguinte, pois em 2007, 40% das pessoas declararam não haver consenso científico sobre o assunto.

Colocando a questão para os dias de hoje e, dentro do contexto brasileiro, é esse o mal de disseminar uma cultura de negacionismo e ignorância. Pois, mesmo que depois pesquisas científicas provem de maneira contundente, já terá se formado uma cultura de massa com um viés tendendo sempre ao negacionismo e à desconfiança. Seja sobre o aquecimento global, seja sobre a vacinação etc.

Também é citado um livro chamado The Skeptical Environmentalist, de Bjørn Lomborg. O autor dele diz que a regulação é um caminho errado para enfrentar os problemas, porque isso inibe o crescimento econômico e a inovação tecnológica, que são as reais soluções para miséria humana. Os desafios ambientais, segundo ele, terão sua soluções providas pelo livre mercado.

Concordo que há hipocrisia quando se trata de países desenvolvidos quando lançam mão da agenda verde, "chutando a escada", pedindo a países subdesenvolvidos a fazer o que não fizeram. Mas não é o ponto central do argumento de Lomborg, pelo que parece. Seu livro foi ventilado como tendo quase 3000 notas de fim ("rodapé"), todavia seus críticos alegam que a maioria delas não citam como fontes artigos científicos e sim artigos de mídia e fontes secundárias. Posso confirmar que as notas são fracas mesmo neste sentido. Há muitas notas que são apenas comentários do próprio autor e não trazem referência nenhuma. Agora, verdade seja dita: É um livro de cerca de 800 páginas, possui uma boa organização e índice remissivo. Neste sentido, é uma obra bem robusta, ainda que pareça usar de grande desonestidade intelectual (seus críticos alegam que ele faz uma "colheita de cerejas").

Por fim, li também que, em 2005, Michael Crichton escreveu um livro chamado "Estado de Medo", ficcional, mas que considera que o aquecimento global é uma conspiração. Ele alega que, apesar de ser uma ficção, parte de uma premissa real (sic). Chegou até mesmo a participar como testemunha em uma audiência do congresso (!) sobre temas ambientais:

"[...] Vermont Senator James Jeffords summed up the cultural construction of ignorance perfectly when he asked: 'Mr. Chairman, . . . why are we having a hearing that features a fiction writer as our key witness?' ".

2024-01-22 (p. 89)

Terminei o capítulo 3, o último título foi "HOW CLIMATE SCIENCE BECAME A VICTIM OF THE COLD WAR". Há, no final, uma citação que usa uma boa figura de linguagem:

"The great economist John Maynard Keynes famously noted that there is no free lunch. The western world has experienced 150 years of unprecedented prosperity built by tapping the energy stored in fossil fuels. That was our lunch. Global warming is the bill".

Também comenta que há uma visão ingênua que vários cientistas seguem: de que se a ciência comprovar algo, os Governos agirão de acordo. Mas não necessariamente isso acontece (como aconteceu com com o Governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, que disse que iria tomar as medidas para combater o aquecimento global, quando tomou conhecimento disto). Ocorre que os cientistas / negacionistas também seguem esta lógica: eles acham que se ficar demonstrado cientificamente, o governo agirá de acordo, por isso tentam "refutar" as constatações científicas.

Por causa desta suposta ligação entre Ciência e Atos do Governo, que muitos dos negacionistas são "fundamentalistas do Mercado", pois consideram as medidas para preservação do meio ambiente e combate ao aquecimento global como "anti-mercado".

2024-01-24 (p. 96)

Chapter 4 - Manufactured Uncertainty

O início deste capítulo repisa muitas coisas já tratadas nos capítulos anteriores. Começa citando a relação entre a Síndrome de Reye e o consumo de aspirina por crianças com doenças virais. Desde 1986, os laboratórios foram obrigados a informar sobre isso em suas bulas. A questão debatida é que não há uma certeza absoluta sobre isso, mas é inegável que existe um nexo causal e a indústria sempre argumentou em cima desta dúvida, o que adiou a obrigatoriedade do alerta em dois anos.

Poucos desafios científicos são mais complexos do que entender a causa de doença em seres humanos. Pois, em laboratório, fazemos testes apenas em animais. Em campo, com humanos, não são realizados testes. Apenas observamos os humanos que já foram expostos a determinada condição ou substância "naturalmente".

THE TOBACCO ROAD

Há até um famoso slogan da indústria do tabaco: "A dúvida é o nosso produto". Ou seja, a estratégia é fabricar incerteza. Tal ramo até produziu publicações "científicas", dentro da linha editorial, o dever é sempre tocar no ponto da controvérsia, contradição.

2024-02-29 (p. 123)

CHAPTER 5 - Coming to Understand Orgasm, and the Epistemology of Ignorance NANCY TUANA

Este capítulo começa de forma bem arrastada. Em suas duas primeiras páginas é extremamente arrastado e parece não chegar a lugar nenhum. Logo na segunda nota de rodapé há um texto explicativo enorme. Depois, fica um pouco mais compreensível.

Fala de uma ignorância proveniente de não saber fazer algo, por conta de tal conhecimento não ser mais valorizado, importante ou funcional. Cita o exemplo dos partos que, por conta da pressão das operadoras da saúde, são realizados apenas na modalidade cesariana. Com isso, os médicos "desaprenderam" a fazer parto normal.

Também questiona: quem se beneficia e quem fica em desvantagem por este tipo de ignorância.

Prossegui com a leitura do capítulo e continuou bem arrastado mas, no final da sessão de leitura, começou a engrenar. Basicamente, discute a falta de representação ou de detalhes na representação do órgão sexual feminino. E também sobre a mistificação do clitóris, uma vez que não é necessário que mulher tenha orgasmo para conceber (ao contrário do homem), tal tópico foi negligenciado em estudos, sob a perspectiva do sexo (do lado das mulheres) ser aceito apenas como meio para reprodução e não como fonte de prazer.

2024-03-02 (p. 131)

THE ISSUE OF PLEASURE

Este trecho que li hoje foi bem interessante, mas a autora escreve de forma arrastada e se repete muito (identifiquei facilmente citações diretas que já haviam sido feitas há 10 páginas atrás).

Trata da ignorância tanto sobre a anatomia do órgão sexual feminino quanto a negligência ao tratar da estimulação para o prazer. Uma vez que costuma ser tratado sempre da perspectiva do sexo apenas como um meio para reprodução (e não para o prazer também). Isso é evidenciado até no léxico "órgão reprodutor feminino".

Nesta esteira, focando o sexo apenas sob um paradigma reprodutivo, valoriza-se mais a relação sexual que envolve a penetração (indispensável para a concepção) do que a estimulação do clitóris (que serviria mais ao prazer e pode ser realizado com um vibrador, por exemplo).

Há um trecho bem curioso, que trata dos múltiplos orgasmos:

"William H. Masters and Virginia G. Johnson (1966) similarly documented women’s ability to have more than one orgasm without a significant break. They noted that if proper stimulation continues after a woman’s first climax, she will in most cases be capable of having additional orgasms—they report between five and six—within a matter of minutes. Masters and Johnson also report that with direct clitoral stimulation, such as an electric vibrator, many women have from twenty to fifty orgasms. Despite having science and all those measuring tools on our side, efforts continue to suppress this bit of knowledge".

2024-03-04 (p. 139)

BODIES AND PLEASURES

Neste último título, há uma citação de McWhorter que dá uma perspectiva interessante: "What if we used pleasure rather than pain as our primary disciplinary tool?".

Na mesma linha, a autora cita Annie Sprinkle, uma ex-atriz pornô que se tornou uma artista de performance e educadora sexual: "There’s a lot of people who talk about violence, rape, and abuse. But, there’s not a lot of people that talk about pleasure, bliss, orgasm, and ecstasy".

Na conclusão, afirma que há correlação entre conhecimento e prazer. E diz que seu objetivo se divide em dois pontos: 1) compartilhar sua fascinação pelo estudo científico da sexualidade, em especial a feminina; 2) sublinhar a importância e poder daquilo que não sabemos e poder político que essa ignorância representa. Alega que um estudo completo da epistemologia deve incluir o estudo da ignorância, não apenas do conhecimento (e, nisso, concordo plenamente).

Reforça que o estudo da ignorância fornece um paradigma para os valores do trabalho e nossos conhecimentos práticos. E finaliza dizendo que não podemos assumir que as ferramentas ou teorias que desenvolvemos para o estudo do conhecimento podem ser transferidas para o estudo da ignorância.

Este foi um artigo bem longo e muito, muito redundante mas, principalmente em seu final, traz uma ótima contribuição para a proposta do livro. Com o bônus dessa perspectiva do aprendizado não só pela dor, mas pelas coisas positivas também.

PS: Essa questão me remete a uma passagem que li em MURAKAMI, Haruki. Do que eu falo quando eu falo de corrida: "a dor é inevitável. Sofrer é opcional". E outra, na mesma linha, que li depois em MANSON, Mark. F*deu Geral: "se a dor é inevitável, o sofrimento é sempre uma escolha". No artigo de Nancy Tuana, se abre um novo horizonte, para enxergar as coisas por um vetor positivo, de fato e não apenas um conformismo ou visão positiva diante de algo negativo. Essa foi uma boa reflexão.

2024-03-05 (p. 162)

PART II Lost Knowledge, Lost Worlds

CHAPTER 6 - West Indian Abortifacients and the Making of Ignorance (Londa Schiebinger)

Este capítulo discorre novamente sobre um assunto atinente às mulheres, mas é bem mais direto ao ponto em relação ao capítulo anterior. Trata-se do conhecimento de plantas abortivas. Enquanto ervas medicinais que combatem a Malária eram levadas para Europa, juntamente com seu conhecimento medicinal, o mesmo não ocorria com a Peacock Flower (Poinciana pulcherrima ou Caesalpinia pulcherrima). Ela era até transportada e plantada com vistas a seu efeito decorativo, nada mais. É citado o exemplo de outra planta abortiva conhecida como Pennyroyal. Logo me lembrei na música "Pennyroyal Tea" do Nirvana, que se inspirou nela.

Em suma, depreende-se que essa ignorância seletiva tinha e tem como objetivo o controle social, na forma de manter sempre um Exército industrial de reserva.

AGNOTOLOGIC FISSURES

Neste título, a autora questiona o que teria impedido de o conhecimento sobre as plantas abortivas chegar à Europa. Sugere que, no período Colonial, a maioria dos escravos eram homens e a maioria dos administradores das colônias e naturalistas também. Além disso, desenvolver drogas para o controle de fertilidade ia diretamente contra os interesses mercantis. Na Europa, a abundância populacional servia não somente para a produção de grãos e bens, mas também para reserva do exército, sem contar o pagamento substancial de impostos pelos trabalhadores.

Terminei o capítulo 6. No final dele, fala sobre o conhecimento sobre parto que foi perdido, com a transição das doulas / parteiras para os médicos obstetras. Também narra os relatos de Humboldt, que descobriu que os "ameríndios" usavam plantas abortivas que eram, inclusive, seguras. Mas por motivos (entre eles, morais) decidiu não disseminar as informações na Europa.

2024-03-15 (p. 182)

CHAPTER 7 - Suppression of Indigenous Fossil Knowledge From Claverack, New York, 1705 to Agate Springs, Nebraska, 2005 ADRIENNE MAYOR

COTTON MATHER AND THE CLAVERACK GIANT, 1705-1712

Li a primeira parte deste capítulo e é bem interessante. Trata de como ignoraram (e esnobaram) o conhecimento que os indígenas norte-americanos já possuíam a respeito de fósseis de espécies extintas. Citam Cotton Mather, um Puritano que também fazia estudos nessa área (e é mais conhecido por seu envolvimento no Julgamento das Bruxas de Salém). Ele tende a considerar os conhecimentos "pagãos" como coisas de Satã e, deliberadamente, não leva em conta o conhecimento indígena. Em Nova Iorque, encontram uma ossada gigante, de um mastodonte. Logo, cristãos como Cotton Mather interpretaram aquilo como sendo restos dos ossos de gigantes do tempo do Dilúvio e da Arca de Noé.

GEORGES CUVIER'S INTEREST IN ANCIENT AND INDIAN FOSSIL DISCOVERIES, 1796-1821

MARTIN RUDWICK'S SELECTIVE SILENCE, 1972-2005

No primeiro título, a autora discorre sobre as descobertas e escritos de Georges Cuvier's, um francês que é considerado um dos pais fundadores da Paleontologia. Cuvier dedicou atenção especial para as descobertas sobre fósseis dos indígenas. No segundo título, há o relato de como Martin Rudwick, seu tradutor para a língua inglesa, omitiu seletivamente quase todos os trechos da obra de Cuvier que citava o conhecimento indígena. E salienta que Rudwick tinha um discurso indulgente, que relativizava os erros de pesquisadores de outras épocas, alegando que deveríamos enxergá-los como "Homens do seu tempo", mas não tinha a mesma régua quando se tratava de indígenas.

GEORGE GAYLORD SIMPSON AND "TRUE" FOSSIL DISCOVERIES, 1942-1943

Neste título do capítulo, é relatado como George Gaylord Simpson desdenhava das descobertas de fósseis realizadas pelos indígenas. Ele não as omitia, mas não as considerava "verdadeiras descobertas".

DANGEROUS FOSSIL KNOWLEDGE AT AGATE SPRINGS, NEBRASKA

Este foi o título que fecha o sétimo capítulo. Trata de uma propagação da ignorância, de forma deliberada, pelos próprios indígenas a respeito dos fósseis, quando acreditam que estes podem trazer alguma maldição ou mal para as pessoas ou para a própria natureza. E a autora relativiza isso, dizendo que é diferente da Agnotologia proposta pelos europeus, classificando-a como uma "ignorância virtuosa", pois eles sinceramente acreditam que tais conhecimentos podem trazer danos. A meu ver, uma relativização cultural tratando os indígenas como o bom selvagem de Rousseau (no livro ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da Educação, a ideia de que o homem é naturalmente bom e má é a educação dada pela sociedade).

2024-03-25 (p. 205)

CHAPTER 8 - Mapping Ignorance in Archaeology - The Advantages of Historical Hindsight - ALISON WYLIE

Este capítulo é sobre a ignorância na arqueologia. Até a parte que li, soa como um preâmbulo, mas dá algumas linhas interessantes sobre conceitos e sobre como o assunto será abordado. Há uma epígrafe legal na abertura, em tradução livre "Comparada à lagoa de conhecimento, nossa ignorância permanece como um oceano. De fato, o horizonte do desconhecido recua conforme nos aproximamos dele".

MAPPING IGNORANCE

Discorre que o conhecimento que temos é uma pergunta específica e a ignorância se estende por inúmeros domínios que não não iremos começar a conhecer até que aprendamos a fazer perguntas diferentes.

Há uma implicação sobre como o fator humano "contamina" o conhecimento, ao entrar em contato com ele. Por conta disso, uma ciência "exata" se torna algo "impossível".

Há uma outra citação interessante (remetida a Bacon, mas pesquisando na internet, remete a Darwin...), em tradução livre: "ignorância produz confiança de maneira mais convicta do que quando há conhecimento".

A autora estabelece uma simetria: que os mesmos fatores que explicam a produção de conhecimento são relevantes para entender a produção e manutenção da ignorância.

IGNORANCE AS SILENCES IN HISTORY

IGNORANCE, SILENCES, UNCERTAINTIES IN THE ARCHAEOLOGY OF "EMINENT MOUNDS"

Ainda não consegui compreender bem o ponto deste capítulo. Não sei se é o vocabulário da autora, mas até o momento não percebi nenhuma relação direta mais incisiva com o tema central do livro (Agnotologia).

Há um trecho que narra fatores que podem influir na arqueologia e nas narrativas, como saqueadores de sítios arqueológicos, que determinam o que irá sobreviver e o que será apagado da História, assim como o processo de erosão. Há também os fatores sociopolíticos. E o que os arqueólogos recuperam não depende apenas do que é visível, acessível, mas também do que eles acham interessante, intrigante, relevante etc.

Também são relevantes os fundos para pesquisa, assim como os "acidentes" de interesses e conexões pessoais. Em suma: até o momento o capítulo mais "insosso".

THE VAGARIES OF EVIDENCE

THE LEGACY OF INTERPRETATIVE CONVENTIONS

Capítulo finalizado. Em sua parte final, fala muito sobre os "mounds" (montes artificiais) de povos antigos. A crítica é pela tradição dos arqueólogos de sempre se interessarem pela parte exótica das antigas tribos, como o suposto canibalismo (deduzido a partir de esqueletos desconjuntados, mas que poderiam ser parte apenas de um ritual mortuário. Aliás, em determinado vídeo, o canal de Youtube Mundo Sem Fim comenta de uma tradição de um povo, no Peru ou Bolívia, de esquartejar o corpo dos mortos, como parte de uma cerimônia funerária).

Como os montes são artificiais, especula-se se não seriam "proto cidades".

2024-08-31 (p. 213)

PART III Theorizing Ignorance

CHAPTER 9 Social Theories of Ignorance MICHAEL J. SMITHSON

A CONFUSION OF DEFINITIONS AND TERMINOLOGY

Inicialmente, expõe a distinção mais popular da ignorância: ignorância consciente (saber que não sabemos); meta-ignorância (não saber que não sabemos).

Depois, sugere quatro critérios para os tipos de ignorância (cf. p. 211 e 212).

A ignorância, assim como o conhecimento é socialmente construída. Um entendimento em profundidade de como é construída requer atenção de quatro pontos: 1) quais alegações são feitas; 2) como essas alegações correspondem aos aspectos de conhecimento e ignorância; 3) como as partes interessadas usam e respondem às alegações sobre ignorância; e 4) quais as consequências dessas alegações sobre ignorância na interação social?

2024-10-06

CULTURAL SOURCES

Na busca das fontes de onde vem a ignorância, destacam-se duas delas senso comum realista, que engloba tanto o sagrado quanto o profano (na distinção de Durkheim); e o senso comum da socialidade, que se refere às nossas crenças sobre o mundo e inclui a Teoria da mente.

WHAT IS AND WHAT IS NOT A "SOCIAL" THEORY OF "IGNORANCE"?

Foca na origem sociocultural da ignorância:

A última enfatiza a agência individual, como as pessoas conceituam, representam, negociam e respondem à ignorância.

Pessoas que são polidas umas com as outras, tendem a considerar como ambiguidade ou algo vago mais do que, de imediato, distorção ou enganação.

THE NEGATIVE BIAS TOWARD IGNORANCE

Três orientações no campo da psicologia:

O penúltimo, pelo que entendi, teme a incerteza, porque há um conjunto de teorias baseadas na emoção que propõe que a ansiedade é uma consequência da incerteza.

Já o último, é primariamente preocupado com o critério de julgamento e escolha. Uma visão do humano como hedonista (procurando prazer e evitando a dor). Uma visão utilitarista (John Stuart Mill) também, acrescento eu.

A despeito das tensões destas três perspectivas, convergem na ideia de que a ignorância será reduzida ou banida completamente.

Para Jourard, a saúde mental é indicada pela habilidade das pessoas se fazerem conhecidas (se abrir) para pelo menos uma outra pessoa. Um tipo ideal de relacionamento.

Por outro lado, uma posição mais radical é de que o entendimento não compartilhado é essencial para inúmeras formas de vida social. Por exemplo, muitas organizações exigem e recompensam pessoas por terem uma comunicação mais fechada do que aberta.

2025-01-09

TOWARD A BALANCED VIEW OF IGNORANCE: MIXED MOTIVES AND INTERESTS, BOUNDED RATIONALITY, AND CONFIRMATION BIAS

Nem sempre a ignorância é algo negativo. Podemos citar como exemplo os pais que não querem saber o sexo do filho que estão esperando ou não querer saber o final de um livro, filme ou jogo, evitando spoilers.

O viés de confirmação, de acordo com muitas explicações reduz a sobrecarga cognitiva.

IS IGNORANCE ALWAYS A COGNITIVE DEFICIT?

Não entendi o raciocínio proposto neste tópico. Cf. p. 220-221.

SPECIALIZATION, PRIVACY, TRUST, POLITNESS, AN LEGITIMATION

A especialização é um arranjo social, uma vez que cada pessoa não pode ter todo o conhecimento de todas as áreas. Compartilhamos a ignorância sobre muitas coisas e esperamos que os especialistas nos esclareçam sobre o assunto no qual detém o conhecimento.

A confiança entra em cena quando, por exemplo, confiamos que os especialistas nos darão informações corretas e não falsificarão evidências.

A privacidade quando consensual, é um arranjo de ignorância cooperativa, enquanto o sigilo é imposto unilateralmente. A confiança tolera a ignorância em troca de não ser "explorado".

Polidez. A ambiguidade é usada estrategicamente nas comunicações com diversos propósitos. Um deles é de alegar que o que disse foi interpretado de forma diferente do que quis dizer.

CAN AGNOTOLOGY BE INTERDISICIPLINARY?

A ignorância é inerentemente um tópico multidisciplinar.

O autor / autora do tópico diz que indica estratégias na Agnotologia. Três delas:

Também traz três preocupações centrais:

FIM DO CAPÍTULO 9

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