Do gás à comida, um Ctrl+z na História
Ó o gás!
No final dos anos 1980 e início dos 1990, os antigos caminhões de gás não possuíam música: anunciavam sua passagem com uma buzina irritante e, quando esta cessava, um dos entregadores gritava "Ó o gás!“. Aquilo incomodava bastante, mas era tolerado tendo em vista as limitações da época e por ser um item de primeira necessidade.
Ainda no início dos anos 1990, surge a música suave e relaxante da Ultragaz no lugar da barulheira de outrora. A concorrência, por sua vez, adotou Für Elise. Esta última marcou o imaginário popular, associando a composição de Beethoven à entrega de gás ou à música de espera em chamadas telefônicas.
Curiosidade: o compositor da música usada pela Ultragaz é Hélio Ziskind, autor de diversas trilhas de programas jornalísticos e infantis da TV Cultura. Nesta entrevista, comenta o contexto da época e também sobre a releitura em funk, que brinca com o contraste entre a antiga e a nova forma, invertendo sua ordem.
Regulação
Tudo muito bonito, não é mesmo? Mas não se iluda: isto não foi fruto da boa vontade destas empresas. Mas sim uma demanda gerada por determinação legal dos municípios. A mais emblemática, da capital paulista, foi a Lei nº 11.016/1991, promulgada pela então prefeita Luiza Erundina:
Proíbe o uso da buzina dos caminhões de venda de gás engarrafado a domicilio, para anunciar a sua passagem pelas vias e logradouros deste município, e dá outras providências.
A íntegra da referida lei no Diário Oficial de 28/06/1991:

Conveniência ou Morte!
Três décadas depois, internet residencial com fibra ótica e smartphones com 5G fazem parte do nosso cotidiano. As entregas não se restringem mais ao gás ou à singela pizza no final de semana: recebemos pedidos de produtos que compramos pela internet e comida das mais diversas. Estas últimas, a qualquer hora do dia, da noite (ou da madrugada).
Mas, estranhamente, há uma dissonância nesta "Sinfonia do Século XXI": o insuportável e ensurdecedor barulho das motos de entrega e de suas malditas buzinas. Sem prejuízo dos gritos de seus condutores ao invés do uso da campainha para anunciar sua chegada (aqui, a perspectiva é de alguém que ainda mora em casa e não em apartamento / condomínio fechado).
Tivemos um inegável retrocesso e o futuro não é mais como era antigamente. A reflexão que me trouxe aqui surgiu ontem, depois de um entregador buzinar bem em frente ao meu portão (o pedido não era da minha casa), fazendo o som reverberar pelas paredes do corredor e chegar ao meu quarto, meus ouvidos, "minha alma". Algo que, às vezes, me deixa atordoado e me faz lembrar daquele "tuin" nos filmes de guerra, quando estoura uma granada perto de um soldado, deixando-o desorientado.
Pensei: estamos no Ano do Senhor de 2026, já se passaram uns 35 anos da transição dos gritos e buzina dos caminhões para a música suave na entrega do gás. Não há limitação material que justifique a prática do buzinaço e gritaria atuais envolvendo essas motos (que já poderiam ser elétricas, inclusive). Não uso apps de delivery de comida, mas imagino que possuam rastreio e envio de notificação à pessoa que a solicitou. Afinal, por qual motivo, depois de décadas, isso voltou a acontecer?
Desregulação
Recentemente, li o livro Enshittification, de Cory Doctorow, que coloca a regulação como um fator decisivo. Tanto para limitar o poder das grandes corporações, quando bem empregado; quanto para "abrir a porteira" e "passar a boiada", quando usada somente em favor delas.
Da mesma forma que a legislação municipal "silenciou" os caminhões de gás nos anos 1990, a desregulação deu asas à plataformização que, dos anos 2010 para cá, trouxe de volta este transtorno que já havíamos superado. E, falando em transtorno, segundo artigo do Outras Palavras sobre os entregadores:
Além disso, essa categoria apresenta uma frequência de transtornos mentais de 25%, 10% superior à estimada pela OMS em adultos economicamente ativos.
Pretendo falar mais sobre essa (in)conveniência (in)conveniente e também sobre o aspecto cultural dessa devoção que nós, brasileiros, temos pelo barulho incessante. Será que o silêncio dá espaço para enxergar a dura realidade ao invés de maquiá-la e por isso o evitamos?
Bi-bi-bi-bi-bi... Bi-bi!
Seremos macacos outra vez (Barão Vermelho)
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