Eleições
A cada dois anos, vamos às urnas escolher nossos representantes. O texto a seguir discorre sobre como o processo se dá hoje, aponta alguns de seus problemas e sugere uma abordagem diferente daquela cristalizada e reforçada pela e para a sociedade.
No caso do Poder Executivo, sua função principal é administrar: o Município (Prefeito), o Estado (Governador) ou o País (Presidente da República). A fim de avaliar quais candidatos têm as melhores propostas e decidir seu voto, o eleitor pode: ler seus Planos de Governo, assistir a propagandas, entrevistas, sabatinas e debates. E, se tiver disposição, pode até mesmo participar das atividades presenciais das campanhas.
Entretanto, boa parte dos Planos de Governo são pró-forma. E, ainda que não fossem, há pouco tempo hábil para que o eleitor faça sua leitura integral, compare, reflita e decida baseado neles. Quanto às sabatinas e entrevistas, elas carecem de perguntas pertinentes ao cargo; enquanto os debates têm sido apenas uma troca de ataques ad hominem para gerar vídeos curtos que, vistos de forma isolada, podem distorcer os fatos.
Por sua vez, o Poder Legislativo — responsável pela elaboração de leis e fiscalização do Poder Executivo — conta com elevado número de cargos e candidatos (Vereador, Deputado Estadual, Deputado Distrital, Deputado Federal e Senador) cujo material informativo nem sempre é disponibilizado. Além disso, sua cobertura nos veículos de comunicação tradicionais é bem limitada; na Internet, ocorre de forma dispersa, sobretudo devido aos algoritmos das redes sociais.
Cabe ressaltar a provável falta de tempo hábil, mas também de energia e/ou interesse do eleitor para lidar com tudo isso. Enquanto, no smartphone, ele recebe: informação, desinformação e pânico moral que circulam nas redes e aplicativos de mensagens das big techs. Estas, não só têm interesse no pleito como, eventualmente, derrubam perfis sem dar uma justificativa plausível para isso.
No final das contas, o que decide boa parte dos votos são os afetos: simpatia pelo candidato escolhido e, principalmente, antipatia por aquele que foi rejeitado.
E, mesmo dentre as escolhas mais racionais, temos diferentes espectros, como: o temporal (benefícios de curto, médio ou longo prazo) e o da abrangência (políticas que atingem apenas seu entorno ou um recorte mais amplo da sociedade), só para citar dois exemplos.
Diante de tudo disso, penso que devemos elevar o nível do debate. E uma forma simples de distinguir sinal de ruído é usando o caput do artigo 6º da Constituição como parâmetro:
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
Com efeito, limitando o debate aos tópicos supracitados — que abrangem, direta ou indiretamente, tudo o que interessa à sociedade — deixamos de ser pautados por candidatos cuja relevância foi construída em cima de polêmicas vazias. Assim como os vampiros, eles não resistem à luz.
Portanto, cabe a nós — cidadãos ainda não organizados — cultivar um ambiente inteligível e propositivo principalmente durante o intervalo de dois anos que separa uma eleição da outra. Ou continuar apenas reagindo, desesperadamente, às vésperas de cada pleito e sofrendo suas consequências nos próximos quatro, oito ou até mesmo 21 anos, em casos extremos. Com certeza, a segunda opção não fará bem à nossa saúde física ou mental e a História recente do Brasil, antes ou depois de nascermos, comprova isso.
Comente por e-mail | Mastodon | RSS | Sobre