Curadoria da Internet

Leitura Intermitente

Algumas métricas, estatísticas e reflexões sobre o hábito da leitura; incluindo o esforço para perseverar nele diante de um cenário tumultuado e de procrastinação reiterada.


O cenário

Em 2025, excetuando estudos, li muito pouco. Na data em que iniciei este texto, 13 de dezembro de 2025, estava em 70% da edição ilustrada de O Código da Vinci (Dan Brown), iniciada em janeiro de 2025 e havia concluído os Ensaios de Francis Bacon, obra que estava lendo aos poucos ao longo de alguns anos. Nada mais. E não se trata nem do "bloqueio" que estava para ler ficção.

Cabe ressaltar que não sou imune às distrações do mundo moderno. No entanto, os motivos que mais dificultam meu ato de leitura hoje são: barulho, calor e interrupções. Sobre este último, acredite: na data em que escrevo este parágrafo, decidir ler durante um bloco de 15 minutos e "consegui" ser interrompido antes de conclui-lo!

A leitura é uma de minhas atividades favoritas e está fazendo falta, mas praticá-la no ambiente em que estou inserido é uma tarefa hercúlea que exige muita disciplina e força de vontade. O vídeo a seguir, de David Foster Wallace, vai bem ao encontro disso:


https://www.youtube.com/watch?v=YbaUm8bVz64


O remédio amargo

Sendo assim, resolvi lançar mão da técnica Pomodoro: 25 minutos de atividade por 5 minutos de intervalo. Idealmente, prefiro longas sessões de leitura, de uma hora e meia a três horas seguidas. Como isto não é provável hoje, a melhor forma que encontrei para contornar o problema foi desapegar do preciosismo: ler quando der, como der.

Pensando nisso, coloquei no papel (ou planilha) algumas métricas de leitura que, na pior das hipóteses, permitem ler um livro a cada três meses, chegando ao total de quatro livros ao ano. Observação: a estimativa de tempo é pessoal e arbitrária; o parâmetro de livro que utilizei foi de uma obra com 300 páginas cujo tempo de leitura gira em torno de 20 horas (sim, sou bem lento):

Métricas para Livros|alt text

A intenção não é tornar a leitura algo mecânico, gamificado ou produtivo. Na verdade, se pudesse, faria isto aqui! Mas como diria Leonard no filme Amnésia (Memento, 2000): "hábito e rotina tornam minha vida possível".

O ponto negativo de um tempo tão exíguo é que nem sempre ele coincidirá com o final do capítulo ou até mesmo da página. Como disse, é preciso desapegar destas "completudes": o negócio é usar um daqueles post-its com seta para indicar o parágrafo / linha / palavra em que a leitura foi interrompida para retomá-la quando possível (em sendo livro impresso).

Corta para o início de 2026 e, mesmo falhando em vários dias (não é sobre streaks), posso dizer que voltei a ler com maior assiduidade. Ainda em 2025, após aplicar a técnica, concluí O Código da Vinci (Dan Brown) e fiz a leitura integral de Rambo First Blood (David Morrell) em dez dias.

Histórico de Leitura|alt text

Com isso, quebrei o "jejum" de livros de ficção: minha maior dificuldade desde a época da Pandemia (talvez a realidade tenha superado tal gênero literário). Na data de publicação deste texto, já passei da metade de Enshittification (Cory Doctorow); este, uma não-ficção em inglês que aborda um tema que tratei aqui.


A recompensa

Vivemos em um País no qual os índices de leitura pioram cada vez mais e somos constantemente incentivados a consumir conteúdos na forma de vídeos, grande parte deles com pouco ou nenhum espaço para reflexão. E não me entenda mal: há muita gente boa no YouTube, mas é o típico caso de forma que molda o conteúdo. Ao menos para quem tira seu sustento desta plataforma.

Acredito que nossa capacidade de articular pensamentos mais complexos está ligada à leitura de livros, justamente pelo fato de seu ritmo ser ditado por nós e de não possuírem interrupções intrínsecas, como as propagandas de vídeos ou de sites. Além de ser uma mídia não ligada às hard news, formato que costuma apenas drenar nosso tempo e energia, uma vez que é carregado de click baits para garantir renda com anúncios (diferente do jornalismo de formato longo, com reportagens melhor elaboradas que, não raro, se transformam em livros).

Mas não se trata apenas de adquirir pensamento crítico. Mesmo no campo do mais puro entretenimento, o livro nos dá espaço para imaginar personagens, situações, tecnologias e localidades; chegando até mesmo a nos arrancar boas risadas. Ele nos dá o tempo e o respiro necessários para fazermos associações; seja com outros livros, outras mídias ou até mesmo com a realidade que nos cerca. É por isso que, mesmo diante de todas as dificuldades apresentadas, este esforço vale a pena:


https://www.youtube.com/watch?v=BwmnRfslkHg



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