Paralisia do Sono, Viagem Astral, Mistério e O Caçador de Enigmas
Evito as chamadas hard news; no máximo, leio um "Resumão" ao final do dia. Ainda assim, por força do hábito, abro de vez em quando a página principal de alguns portais e, confesso, caí num clickbait do G1 ao me deparar com este destaque: "Sensação de sair do próprio corpo: viagem astral é relatada por 1 em cada 5 brasileiros em pesquisa sobre experiências incomuns".
Antes de clicar, pensei: será que mencionam a paralisia do sono? Devem ter mencionado, é uma matéria relativamente longa e cita uma pesquisa... Eis que leio a íntegra e nada! Em pleno ano de 2026, acho engraçado como se faz um malabarismo para dar asas à fantasia e fugir do óbvio.

A Paralisia do Sono explica boa parte das supostas experiências de "sair do corpo". A primeira em vez que tive uma, foi exatamente como na segunda foto da matéria (reproduzida acima): levantei-me da cintura para cima e vi meu corpo deitado na cama. Quando "retornei ao corpo" e "acordei", senti uma pressão no peito, dificuldade de respirar; nesse momento, o coração dispara, você sente aquela pulsação forte; tenta se mexer e não consegue; tenta falar e não consegue. É horrível.
Após alguns minutos, tudo voltou à normalidade. Quando o fenômeno ocorreu novamente, apenas mantive a calma e aguardei a paralisia passar. Não aconteceu uma terceira vez. Se nunca tivesse me informado e aprendido a respeito, até hoje acreditaria ter vivido uma experiência sobrenatural. E é aqui que matérias como esta, do G1, pecam no papel de informar à população (e são bem-sucedidas no clickbait para pegar gente besta como eu).
Hoje, acho bem temerário dar margem para delírios nas mídias de massa. Estamos no Brasil e já sentimos na pele como as, outrora "inofensivas", teorias da conspiração podem ser instrumentalizadas para desviar a atenção daquilo que interessa e até mesmo fazer uma lavagem cerebral em grande parte da população, utilizando-a como massa de manobra.
Mas houve um tempo em que esses assuntos circulavam de forma inócua (até pela baixa capacidade de replicação e de proliferação), com ares de entretenimento. Neste contexto, cito o programa Mistério, apresentado por Walter Avancini entre 1997 e 1998, na extinta Rede Manchete. Foi a primeira vez em que ouvi falar das Viagens Astrais.
À época, era adolescente e estava interessado por Ufologia; não raro, esbarrava no esoterismo e foi justamente isto que me afastou: a gota d'água foi quando comprei um exemplar da Revista UFO que continha uma matéria sobre caveiras de cristal. Pensei, isso aqui não pode ser algo sério! Hoje, não acredito em vida inteligente fora da Terra.
Em 2000, foi a vez da Rede Globo estrear um programa nessa mesma esteira, dentro do Fantástico. Chamava-se O Caçador de Enigmas e contava com o saudoso Padre Quevedo, aquele mesmo que dizia isso non ecziste! Trajando sempre sua jaquetinha de couro indefectível. Um dos episódios mais icônicos foi quando ele se encontrou com um sujeito que dizia ser Lúcifer, imortalizado na paródia do programa Hermes e Renato.
Basicamente, os casos ou eram fraudes ou decorriam de distúrbios mentais. Até onde me lembro, jamais houve qualquer comprovação de algo sobrenatural ou falta de esclarecimento dentro do mundo natural. Nesse sentido, Quevedo contrariava o estereótipo romantizado no Cinema em filmes como O Exorcista.
No final das contas, o mundo natural e as leis que regem (ou explicam) seu funcionamento podem até parecer entediantes, sem graça. Não obstante, podemos expressar nossa criatividade nas mais variadas formas de arte. É assim que surgem boas obras de ficção científica, terror, fantasia etc.
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