Séries Episódicas
A centelha para este post veio no final de março de 2026, quando Séries Procedurais foi tema da #SextaSerie, uma das Tags Culturais do Fediverso. Não as conhecia por esta nomenclatura, prefiro chamá-las de episódicas: aquelas com episódios independentes, seja lá de qual gênero forem.
A ideia inicial era falar também sobre séries britânicas sucintas e antologias. Como o texto ficou demasiado longo, preferi dividi-lo em três partes que podem ser lidas separadamente.
Séries episódicas na TV
Quando o consumo dessa mídia se dava pela TV (aberta ou fechada), o formato tinha grande apelo. Os episódios consistiam, por exemplo, na resolução de um caso investigativo ou no enfrentamento do vilão da semana:
Esse formato de roteiro é atraente para a redifusão, pois significa que os episódios podem ser transmitidos em qualquer ordem, e os telespectadores não precisam se preocupar em perder a sequência, como ocorre com o formato contínuo.
Isso gerava um fenômeno interessante: duas pessoas assistirem a uma série juntas, mesmo que uma delas não tivesse conferido os episódios anteriores, sem grandes prejuízos para sua compreensão.
Havia, inclusive, um formato "híbrido" que acho bem interessante: episódios independentes com uma trama de fundo que se desenvolve lentamente, ao longo da temporada.
A seguir, deixarei três indicações de séries menos conhecidas do grande público. Mas fique à vontade para indicar outras séries episódicas, se desejar. Quem sabe, faço outro post com uma lista ou atualizo este aqui.
Almost Human
A futurista e cyberpunk Almost Human (2013-2014) conta com Karl Urban no papel do policial John Kennex. A cada episódio, ele resolve o "caso do dia" com seu parceiro sintético Dorian (a referência à obra de Oscar Wilde não é mera coincidência). Há uma mistura de ação, humor e suspense.
O efeito cômico está na tensão entre o humano e androide, como nesta cena hilária na qual vemos o nível de maturidade de nosso protagonista.
Já o lado mais sério e sombrio está nas sessões de um arriscado tratamento ao qual Kennex se submete a fim de recuperar fragmentos de sua memória, que se foram junto com uma de suas pernas. Eis aqui sua veia cyberpunk, com direito a médicos clandestinos em becos e implantes cibernéticos.
Aliás, quando li As Cavernas de Aço (Isaac Asimov), vi alguns paralelos entre o livro e a série. Nesta última, Kennex lida de forma ainda mais antipática com modelos de robôs menos avançados e até estúpidos, ou seja: que não são "quase-humanos", como Dorian. O trecho abaixo do livro de Asimov poderia facilmente se confundir com uma cena de Almost Human:
– Substituir todos nós? Loucura. Não existem homens treinados para ocupar nosso lugar.
– R’s – disse o Comissário. – Eles existem.
– O quê?
– R. Sammy é apenas o começo. Ele transmite recados. Outros podem patrulhar as vias expressas. Droga, cara, conheço os Siderais melhor do que você, e eu sei o que eles estão fazendo. Tem R’s que podem fazer o seu trabalho e o meu. Podemos ser desclassificados. Não pense que não. E, na nossa idade, voltar ao mercado de trabalho...
Fastlane
Minha segunda indicação é Fastlane (2002-2003). Van e Deaq trabalham infiltrados em organizações criminosas, com foco naquelas que envolvem carros, motos e esportes radicais. Soa como um misto de Caçadores de Emoção (1991) com Velozes e Furiosos (2001).
Sua chefe (Billie), coloca à disposição deles a "Loja de Doces": uma instalação repleta de veículos esportivos. O lema desta divisão secreta da Polícia é: tudo que apreendemos, guardamos.
Aqui, temos uma vibe mais noventista que mistura ação com um bom toque de humor. Este último aspecto reforçado pela ótima dublagem da versão exibida no Brasil pelo SBT.
O nível de produção impressiona por se aproximar bastante com a de um longa metragem (ouvi dizer que foi cancelada por causa do alto custo). São 22 episódios independentes e não há nenhuma trama maior de fundo, se bem me lembro. Conta também com Bill Duke (Predador, 1987) no elenco.
Brimstone
Por último, trago a obscura Brimstone (1998). Nela, Ezekiel Stone interpretado por Peter Horton (diretor de A Cura), é um ex-policial morto e enviado ao Inferno. Lá, faz um trato com o diabo (interpretado por John Glover, o pai de Lex Luthor em "Smallville") a fim de trazer de volta 113 almas que escaparam.
Cada uma delas é representada por uma tatuagem no corpo de Stone, que queima e desaparece quando os manda de volta para o Inferno, atirando em seus olhos: a janela para a alma.
Todos os dias, o protagonista acorda com a mesma roupa e a mesma quantidade de dinheiro. Há situações divertidas, pois como "ressuscitou" muitos anos depois, está culturalmente deslocado.
Em determinada ocasião, sente saudades de um chocolate de sua época, semelhante a um "Snickers". Tratando-se de produto perecível, não consegue encontrá-lo. Mas ao final do episódio, após receber no prédio a referida "gostosura", o Diabo vem provocá-lo.
A réplica de Zeke Stone, ainda de boca cheia enquanto saboreia o chocolate, não poderia ser melhor: "Vá para o Inferno!", enquanto fecha a porta do elevador na cara cínica do capeta.
Uma reflexão
O que as três séries têm em comum? Todas foram canceladas ainda em sua primeira temporada. Sem entrar no mérito sobre os motivos que levaram a isso, vejo aqui outro ponto positivo das séries episódicas em relação às contínuas.
Mesmo canceladas precocemente, isso não impede que sejam desfrutadas hoje em dia. É bem diferente de uma série contínua na qual a grande expectativa está na resolução de sua trama maior, de um final.
Na verdade, mesmo nas séries contínuas que seguem até sua temporada derradeira, muitas vezes se estendem tanto que perdem sua qualidade e/ou rumo, prendendo espectadores mais pelo desfecho do que pela sua jornada.
Por estes motivos acho interessante quando há um planejamento de começo, meio e fim, principalmente em séries mais curtas, como aquelas de Ricky Gervais, que falarei em outro post.
Além disso, com o advento do streaming, veio a comodidade do conteúdo sob demanda. Por um lado, nos libertou da grade de programação; por outro, alterou a dinâmica da Cultura Compartilhada. Por exemplo: aquele "respiro" semanal que dá ensejo a discussões e especulações nas conversas com amigos sobre o último episódio assistido.
Links Relacionados
- Los tipos de series, por Ignacio de Miguel (AgenciaPodcast)
- Uma defesa do formato semanal e o porquê de ele ser o melhor para séries, por Filipe Chaves (Oxente Pipoca)
- The Boys e a Crise Sem Volta das Séries no Streaming - Felipe Boni (YouTube) - aos 7:41: foi daqui que tirei o termo "Série Episódica".
Comente por e-mail | Mastodon | RSS | Sobre