Curadoria da Internet

Séries britânicas sucintas

Em dado momento, adquiri certa resistência quanto ao número elevado de episódios e de temporadas das séries (em especial, quando "enchem linguiça"). Por melhor que sejam, tenho dificuldade em despender tanto tempo numa única obra audiovisual de forma contínua. Desde então, peguei gosto por um padrão encontrado em algumas séries britânicas.

Cito como exemplo aquelas dirigidas por Ricky Gervais, como The Office (2001): apenas duas temporadas com seis episódios cada e um especial. Nada mais. Por outro lado, o remake estadunidense tem 9 (nove!) temporadas. Quando Gervais apresentou o Globo de Ouro em 2010, até brincou com isso (a partir dos 00:42):

Parece que há nos EUA uma dificuldade em dizer "adeus", de dar um fim. Achei que encontraria isso em Prison Break (originalmente, com quatro temporadas). À época, até elogiei a série pela coragem em colocar um ponto final... Nove anos depois, decidem ressuscitá-la para uma quinta temporada. ¯\_(ツ)_/¯

Vale lembrar também que, antes da popularização do streaming, eram comuns séries com mais de vinte episódios por temporada. Outro ponto relevante foi levantado no vídeo Por que não assisto séries? sobre serieficação, vida digital e duplicação do mundo, do canal Philippe Leão. Concordo em grande parte com ele sobre a Linguagem de Ansiedade:

[...] O próximo episódio é sempre mais importante do que o que você tá assistindo agora. E essa serieficação, ela entrou também na linguagem do Cinema [...] que passa a assumir essa linguagem de ansiedade que assume justamente uma Obsolescência Programada dos próprios filmes. [...] Ou seja, isso nada mais nada menos significa que consumo novo [...] esses serviços de streaming [...] mantém a sua atenção por mais tempo. E veja, nós estamos em um momento que, não à toa, é chamado de Economia da Atenção.


... Voltando às séries britânicas, deixo três indicações a seguir.


Life on Mars (2006-2007)

O detetive Sam Tyler sofre um acidente em 2006 e, ao recobrar a consciência, está em 1973 com "Life on Mars" (David Bowie) tocando no rádio do carro. Ele passa a trabalhar também como policial nessa época e tenta entender o que aconteceu. A série explora algumas questões como a discriminação racial tida como normal àquela época, mas que choca o protagonista "vindo do futuro", quando isso supostamente estaria superado. Pelo que lembro, segue uma estrutura de episódios independentes, mas com esse mistério de fundo: é uma viagem temporal, um sonho...? Uma das melhores séries que já assisti.

Curiosidades: possui um spin-off chamado Ashes to Ashes (2008) com personagens dos anos 1970 no "futuro" (anos 1980). Além disso, existem dois remakes de outros países: um estadunidense de 2008 e outro sul-coreano de 2018.


Derek (2013)

Dirigida e estrelada por Ricky Gervais. São apenas duas temporadas de 6 episódios de uns 20 minutos + episódio especial. Derek é um homem de meia idade que trabalha como funcionário de uma casa de repouso e, possivelmente, está dentro do espectro autista. Há situações em que supostamente não entende as entrelinhas de certas falas e muitas vezes subverte isso para sacanear o pessoal. Os episódios são uma montanha-russa de emoções: do chocante / vergonha alheia até algo bem emocionante e singelo.

Por exemplo, nesta cena em que uma idosa falece enquanto estava dormindo. Ele bate à porta antes de entrar no quarto e, logo em seguida, percebe que aquilo não faz sentido (tal qual quando acionamos o interruptor da luz quando falta energia).

Provoca também uma reflexão sobre a postura da sociedade em relação aos idosos. Reza a lenda que Gervais pedia silêncio quando estavam gravando e algum velhinho pegava no sono. Aliás, a esse respeito, vai aqui um final de episódio memorável, com trilha de "Bones" (Radiohead):


Paranoid (2016)

A trama gira em torno da investigação de duas mortes cujas pistas são enviadas por um anônimo apelidado de "Ghost Detective". É interessante (e agoniante) ver os detetives passando por apuros, sem portar uma arma de fogo. Sem contar seus próprios dramas pessoais. Mas foi exatamente disto que gostei: dessa fragilidade e humanidade dos personagens. Os desdobramentos vão para além das fronteiras da Inglaterra e requerem a cooperação de outros países.

Nesse ponto, simpatizei com Linda Felber, a detetive alemã; ela traz momentos mais leves e quebra o estereótipo do policial sisudo, como nesta cena: enquanto faz videoconferência com os detetives britânicos pelo Skype, usando um iPad, ela e o marido servem a mesa para os quatro filhos. Dá um bom contraste entre as duas equipes e seus humores. Além de ilustrar o arquétipo do personagem aparentemente desleixado, mas que está atento a tudo e é bom no que faz.


Considerações Finais

Cabe salientar que o fato de uma série ser longa não é necessariamente ruim. Trata-se de uma questão de gosto pessoal (sic) que se reflete nos quadrinhos (com as graphic novels) e animes (com os OVAs).

Como dito na reflexão do post anterior, acho legal quando há um planejamento de começo, meio e fim. Por conta disso, muitas vezes dou mais valor a uma série cancelada de forma precoce a uma que foi prolongada artificialmente.

É isso! Na próxima oportunidade, falarei sobre antologias. Até lá, caso não tenha lido, recomendo o post sobre Séries Episódicas.

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